5. COMPORTAMENTO 13.2.13

1. OS MERCADORES DO SAMBA
2. ALERTA PARA A COPA
3. 5 PROBLEMAS QUE PRECISAM SER ENFRENTADOS
4. ADOO SEM FRONTEIRAS

1. OS MERCADORES DO SAMBA
Foi-se o tempo em que as escolas do Carnaval carioca eram mantidas por patronos. Agora entram em cena profissionais treinados para captar recursos, com MBA e especializao 
em marketing, que transformam as agremiaes em empresas 
Michel Alecrim e Wilson Aquino

 CARNAVAL S.A. - Roni Lutero ( esquerda), da Acadmicos da Rocinha, Lcio Bairral ( direita), da Mocidade, e Edson Alexandre (sentado), da Grande Rio, cercados 
por duas passistas: captao de patrocnio para o samba
 
O que era barraco agora  chamado de fbrica. Carnaval virou plataforma. E estandarte pendurado na quadra hoje  banner. A nomenclatura usada no ambiente corporativo 
migrou para as escolas de samba do Rio de Janeiro, junto com uma grande quantidade de especialistas em captao de recursos, oriundos do mercado financeiro  alguns 
de multinacionais e munidos de MBA , e ganha visibilidade nos desfiles deste ano, no auge do profissionalismo das agremiaes. At o organograma das escolas se 
assemelha ao de uma empresa, com diretorias e departamentos comuns a grandes corporaes. Faz sentido: para colecionar notas dez no Sambdromo, e competir ao ttulo 
de campe da festa considerada o maior espetculo do planeta, uma escola no gasta menos do que R$ 12 milhes, sendo que as maiores chegam, ou ultrapassam, R$ 
15 milhes. Numa era em que os tradicionais patronos, a maioria ligada ao jogo do bicho, perdem hegemonia, esses mercadores do samba ganham espao. Cada uma das 
12 integrantes do Grupo Especial recebe em torno de R$ 6 milhes de subveno oficial (leia quadro). Cabe a esses experts em marketing e finanas captar o resto. 
Ao lado de presidentes, eles formam as novas comisses de frente que visitam empresas atrs de patrocnio.

A estratgia varia. H quem tenha a sorte de conseguir um nico patrocinador  como a Beija-Flor, que recebeu R$ 6 milhes , e quem trabalhe mais no varejo, juntando 
vrios patrocnios em cotas menores. A campe do ano passado, Unidos da Tijuca, do consagrado carnavalesco Paulo Barros, tem como enredo a Alemanha, tema sugerido 
pelo pas europeu. Isso abriu alas para o apoio de multinacionais germnicas, mas no sem, antes, arrolar muitas reunies de negcios durante oito meses. As empresas, 
no incio, tiveram resistncia, mas quatro fecharam o patrocnio: as alems Volkswagen, Merck e Stihl e a francesa GVT, conta Bruno Tenrio, 31 anos, diretor de 
comunicao da escola. O pool empresarial somou R$ 3,5 milhes. Chegamos com um plano de negcios pronto. O mercado corporativo teve dificuldade para entender que 
o Carnaval  uma fabulosa oportunidade de negcios, mas isso est mudando, diz Fabiana Amorim, 33 anos, diretora de marketing da Unidos da Tijuca. A escola ainda 
arrecadou R$ 2,5 milhes com eventos, como os 200 shows anuais da bateria no Brasil e no Exterior. Os carnavalescos tentam se superar no luxo e na grandiosidade. 
Nossa tarefa  viabilizar isso, afirma o presidente Fernando Horta, uma liderana entre os comerciantes portugueses do Rio. Temos a obrigao de tocar a escola 
como se fosse uma empresa. No h espao para amadorismo, diz o presidente da Unio da Ilha, Ney Filardi.

MUDANAS - Ney Filardi, da Unio da Ilha, aprova a gesto empresarial: "No h espao para amadorismo"
 
A sortuda Beija-Flor buscou um caminho bem especfico e muito aquinhoado ao levar para a avenida a histria da raa de cavalo brasileira mangalarga marchador. A 
associao nacional dos criadores do animal repassou, sozinha, mais de R$ 6 milhes para o desfile. Para chegar a esse valor, foram mais de 20 reunies em salas 
refrigeradas de ambas as entidades, no Rio e em Belo Horizonte (MG), onde fica a sede dos criadores. A histria do cavalo  muito bonita e a escola vai cont-la 
de uma forma potica. Ser uma oportunidade nica de mostrar essa cultura para o Brasil e o mundo, avalia o presidente da associao, Magdi Shaat. A Beija-Flor, 
que ainda tem o bicheiro Aniz Abraho David, o Ansio, como patrono, tambm busca ampliar o faturamento com shows e eventos na quadra. At uma luta de MMA foi realizada 
no local de ensaio.

MARKETING - Anderson Abreu, diretor de Carnaval do Salgueiro, escola que explora o merchandising e  uma das mais lucrativas do Grupo Especial carioca
 
A Mocidade Independente de Padre Miguel apostou num gnero musical para evoluir na avenida. Vai homenagear neste ano o rock, atravs do Rock in Rio. Recebeu R$ 600 
mil em patrocnio da Artplan, a produtora do festival. Mas o recm-criado departamento de marketing da agremiao foi atrs de outros apoios. Conseguiu R$ 1,5 milho 
da Leader, R$ 500 mil da Souza Cruz e R$ 70 mil da Tim. Sob a direo de Lcio Bairral, 32 anos, com MBA em marketing pela Fundao Getulio Vargas (FGV), a equipe 
montou a estratgia. A gente apresenta primeiro, a proposta com as contrapartidas. Depois, fazemos a apresentao de slides com a histria da escola, em reunio. 
Sempre fui bem recebido, afirma Bairral.

CAPTAO - Fernando Horta, presidente da Unidos da Tijuca: ele e seus marqueteiros conseguiram R$ 3,5 milhes de patrocnios de vrias empresas para falar da Alemanha
 
Ter capital de giro o ano todo  fundamental para manter no quadro os melhores profissionais  uma vantagem do presidente da Grande Rio, Edson Alexandre, que conta 
com um grupo de pelo menos 40 empresas que doam, anonimamente, entre R$ 2 mil e R$ 30 mil por ms, o ano inteiro. O motivo? Querem ser amigos do samba, explica 
o paulista, que  marchand e mora no Rio h 15 anos. O enredo deste ano ser a importncia dos royalties do petrleo para a economia e o meio ambiente fluminenses. 
Ele prprio negociou os patrocnios: R$ 500 mil da Organizao dos Municpios Produtores de Petrleo (Ompetro), alm de duas outras empresas, cujos valores doados 
Alexandre no quis revelar. Ambas do ramo: Libra, de logstica, e Supreme, de lubrificantes. A Ompetro divulgou nota negando que tenha patrocinado a Grande Rio.
 
Para o diretor do curso de administrao da ESPM do Rio, Marcelo Guedes, especialista em marketing de carnaval, as escolas ainda esto comeando a perceber seu real 
potencial econmico. Elas no podem mais sobreviver no modelo de dcadas atrs. Viraram grandes empresas e  natural que organizem sua nova logstica, diz o professor, 
que j prestou consultoria para a So Clemente e a Portela. Mas h quem veja limitaes nessa busca de recursos. Para o pesquisador e musiclogo Ricardo Cravo Albim, 
o espetculo requer mesmo uma receita milionria, mas no  qualquer enredo que d samba. Ainda bem que o desfile no  igual aos realizados nas dcadas de 1940 
e 50.  sinal de que no caiu na mesmice e progrediu. Mas no  conveniente fazer um enredo totalmente comercial. O patrocnio precisa ser diludo, afirma.

MERCADO - Fabiana Amorim, diretora de marketing, e Bruno Tenrio, diretor de comunicao, da Unidos da Tijuca: "O samba  uma fabulosa oportunidade de negcios"
 
O temor do pesquisador tem sentido. A Vila Isabel ganhou o patrocnio da multinacional do setor qumico Basf para falar da importncia da produo agrcola para 
o mundo. A empresa preferiu no revelar o montante destinado  escola, mas garantiu que no faltar dinheiro. Escolhemos a Vila porque  bem estruturada, esteve 
quase sempre no desfile das campes e tem um trabalho social muito forte, revela Maurcio Russomanno, vice-presidente da Unidade de Proteo de Cultivos da Basf. 
Em pouco mais de um ano, ele fez 15 viagens ao Rio para negociar com a agremiao. O cantor e compositor Martinho da Vila, um dos autores do samba-enredo, afirma, 
porm, que o tema no foi escolhido depois que surgiu o patrocnio, e sim, o contrrio. Ns sentamos com eles e dissemos que no aceitvamos imposio nenhuma no 
nosso enredo sobre agricultura. Escolas que se curvam s imposies do patrocinador ainda no esto conscientes da fora que tm. J dispensamos muitos enredos, 
disse Martinho  ISTO.

A guerra de verses no existe no Salgueiro. Na escola, a venda do enredo ficou explcita. O diretor de Carnaval Anderson Abreu reconhece que a escola foi procurada 
por uma revista de celebridades com a proposta do enredo sobre a fama. E que eles cederam. Em troca, receberam R$ 4 milhes de patrocnio. O Salgueiro tambm explora 
o merchandising e a venda de bebidas na quadra do bairro da Tijuca, considerada uma das mais lucrativas do Rio. O profissionalismo das escolas cariocas no se restringe 
ao Grupo Especial  at porque, todo ano, a ltima colocada desse reduto cai para o Grupo A, e a primeira deste sobe para o Especial, numa eterna dana das cadeiras. 
O reconhecimento de que todas so importantes se confirma na deciso da televiso de transmitir ao vivo, a partir deste ano, tambm os desfiles do Grupo A. A Acadmicos 
da Rocinha se arma para tentar voltar ao topo. O administrador de empresas Roni Lutero, 42 anos, optou pelo esquema de cotas varejistas e fechou um acordo de trs 
anos com a cervejaria Itaipava, que repassar R$ 1 milho nesse perodo, o supermercado Extra e o energtico Energetic Plus  o primeiro com produtos e, o segundo, 
com R$ 50 mil. A mentalidade do Carnaval mudou.  Escola de samba sem gesto empresarial,  estratgias de marketing, patrocnio duradouro e apoio da comunidade no 
chega a lugar nenhum, afirma Lutero. Que arremata sem atravessar o samba. Aquela figura de mecenas que bancava sozinho o carnaval  coisa ultrapassada.
 
Colaboraram: Mariana Brugger e Tamara Menezes


2. ALERTA PARA A COPA 
Falhas na inaugurao do Mineiro levantam uma questo: at que ponto a presso da Fifa para a abertura dos estdios afeta a segurana das arenas?
Pedro Marcondes de Moura

 CAOS - Torcedores encontram lanchonetes fechadas e alagamento na reabertura do Mineiro: novos e velhos problemas

Quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014, autoridades definiram aquele momento como um divisor de guas. Para muitos especialistas, a era 
dos torcedores tratados com descaso em estdios sem infraestrutura seria, enfim, superada para dar lugar a arenas construdas com o que h de mais moderno. Nelas, 
os frequentadores seriam tratados como clientes e contariam com facilidades como assentos numerados, amplo estacionamento, banheiros decentes e opes de bares e 
restaurantes para diferentes gostos. A julgar pelo que se viu no domingo 3, na reinaugurao do Estdio Governador Magalhes Pinto, o Mineiro, em Belo Horizonte, 
essas transformaes esto muito longe de se tornar realidade. As 59 mil pessoas que foram  reabertura do estdio, na partida em que o Cruzeiro venceu o Atltico 
por 2 a 1, encontraram novos e velhos problemas  e isso depois de obras de modernizao que consumiram R$ 670 milhes e duraram dois anos e sete meses. O caos encontrado 
pelos torcedores desperta vrias questes. A primeira delas  saber at que ponto as obras feitas s pressas para atender aos prazos impostos pela Fifa no podem 
colocar em risco a segurana dos torcedores. No Mineiro, como o acesso estava estreito demais, houve empurra-empurra.  de imaginar, portanto, o perigo a que estavam 
expostos os torcedores se algum casse no cho e houvesse correria.

A presso para a inaugurao dos estdios para a Copa tem sido grande. H alguns dias, o secretrio-geral da Fifa, o francs Jrme Valcke, estabeleceu abril como 
o limite para a abertura das arenas que vo receber os jogos da Copa das Confederaes, que sero realizados em junho como evento-teste para o Mundial. A correria, 
portanto, ser grande nos prximos dias. As arenas de Braslia, Salvador e Recife, alm do Maracan, no Rio de Janeiro, esto atrasadas  e no h garantias de que 
vo conseguir cumprir todas as exigncias da Fifa no prazo. As crticas  inaugurao do Mineiro fizeram o governador mineiro, Antonio Anastasia (PSDB), mudar publicamente 
de postura. Depois de comemorar a inaugurao do segundo estdio concludo a ser usado na Copa, atrs apenas do Castelo, no Cear, resolveu adotar uma postura 
crtica contra o concessionrio. Na segunda-feira 4, por meio da  Secretaria de Estado Extraordinria para a Copa do Mundo (Secopa), anunciou uma multa de R$ 1 milho 
sobre a empresa Minas Arena. A medida  oportuna, mas no aplaca a frustrao daqueles que compareceram ao Mineiro.

Dificuldades para comprar ingresso, acesso confuso ao estdio, banheiros alagados, falta de luz e lanchonetes fechadas foram alguns dos cartes de boas-vindas oferecidos 
pelos gestores do Mineiro. Tivemos problemas nos sistemas responsveis pela gerao de ingressos, mas tudo foi detectado e sanado, limitou-se a declarar Ricardo 
Barra, diretor-presidente da Minas Arena. Por meio de uma parceria pblico-privada (PPP), a empresa foi a responsvel pela reforma do estdio estadual e ter a concesso 
para gerenci-lo e explor-lo comercialmente por 25 anos. Nos prximos jogos, no teremos essa situao novamente, completou o executivo. Quem esteve no estdio 
ficou com a sensao de que ele foi inaugurado s pressas e que muita coisa foi feita na base do improviso, para que Minas fosse capaz de atender s demandas da 
Fifa e cumprir os prazos definidos pela entidade mxima do futebol. Faz dcadas que vou ao Mineiro e nunca vi nada igual quilo, diz o advogado Leonardo Soares 
Tito, que ingressou na Justia contra a Minas Arena e o Cruzeiro, mandante do jogo. Foi um vexame, porque inauguraram um estdio sem estar concludo. Espera-se 
que os erros sirvam de alerta.#

Fotos: SAMUEL COSTA/JORNAL HOJE EM DIA; Leo Fontes /O Tempo; Beto Magalhes/EM/D.A Press; Fernando Gomes/Agncia RBS


3. 5 PROBLEMAS QUE PRECISAM SER ENFRENTADOS
A inpcia do poder pblico para garantir a integridade de quem quer se divertir em casas noturnas s vai ser superada se o Brasil desatar velhos ns que impedem 
uma mudana de verdade nas leis e normas de segurana
Joo Loes 

A tragdia na boate Kiss, em Santa Maria (RS) escancarou os problemas de segurana das casas noturnas brasileiras. O saldo de 238 mortos e 65 feridos hospitalizados, 
sendo 18 com ventilao mecnica at a quinta-feira 7, mostrou que estamos  merc da inpcia do poder pblico, de empresrios irresponsveis, e atolados num emaranhado 
de leis e normas confusas. Desastres semelhantes em outros pases, como Estados Unidos e Argentina, resultaram em mudanas importantes para garantir a integridade 
das pessoas que buscam diverso nesses espaos. Isso tambm precisa acontecer no Brasil. ISTO ouviu especialistas e elencou cinco graves entraves que precisam ser 
resolvidos para garantir o bom funcionamento das boates e baladas no Pas.
 
1 Bombeiros
 dos bombeiros a responsabilidade de emitir o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), que garante a segurana de um estabelecimento contra incndio. Mas 
com as verbas escassas e os quadros de pessoal insuficientes, a corporao no tem estrutura para dar conta de todas as obrigaes que tem de cumprir. Isso explicaria, 
em parte, a demora para renovar AVCBs de casas como a Kiss, que funcionava com o documento vencido no dia da tragdia, mesmo tendo pedido renovao em novembro de 
2012. Cobrados pela demora, os bombeiros gachos atriburam o atraso s questes administrativas. Faltam recursos que possibilitem a ampliao do efetivo e garantam 
uma boa estrutura de funcionamento, resume Nelson Matter, tenente-coronel aposentado dos bombeiros em Santa Catarina. Hoje, apenas 11% dos municpios brasileiros 
contam com bombeiros. Para contornar o problema, os especialistas ouvidos por ISTO foram unnimes:  preciso aumentar o efetivo e investir mais. Uma proposta  
criar um corpo de bombeiros civil, uma vez que os bombeiros hoje em atuao no Pas so todos militares. Alguns Estados esto mais avanados nessa soluo, como 
Santa Catarina. Treinar esse corpo paralelo e coloc-lo para atuar com superviso dos militares ampliaria o efetivo sem aumentar muito as despesas. Isso, no entanto, 
traz novos desafios. Eles precisariam receber treinamento adequado e seria necessrio estabelecer em quais situaes eles podem intervir e em quais eles devem chamar 
o bombeiro militar.
 
2 Congresso nacional
 Quando acontece uma tragdia da magnitude da que se viu na boate Kiss,  comum ver uma avalanche de propostas de mudanas na legislao federal para evitar que 
algo parecido se repita. Somente entre os dias 4 e 6 de fevereiro, por exemplo, foram propostos dez novos projetos de lei para regular o funcionamento das casas 
noturnas que citam o caso de Santa Maria. A Associao Brasileira de Normas Tcnicas (ABNT), que rene o conhecimento tcnico mais avanado na rea de segurana 
contra incndio, defende a existncia de um cdigo nacional que discipline as regras para o funcionamento de casas de entretenimento. Falta a padronizao, nossa 
legislao  confusa, resume o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que est  frente de uma comisso parlamentar criada para acompanhar as investigaes da tragdia 
da Kiss. Hoje, por exemplo, no h nada que estabelea sequer o padro para placas que indicam as sadas de emergncia. Em 120 dias, Pimenta pretende apresentar 
um projeto de lei federal enxuto e direto que ir se sobrepor ao emaranhado de leis estaduais e municipais que hoje coexistem de forma catica.  fundamental que 
o Congresso aproveite o momento favorvel para exercer, de fato, seu papel legislador.
 
3 Leis estaduais
 As leis sobre segurana estaduais, em vrias regies do Pas, so confusas ou permissivas em demasia. Mas mesmo nos Estados onde elas foram bem pensadas sua execuo 
segue sendo um grande problema. So Paulo  um exemplo disso. As leis paulistas chegaram a servir de modelo para os americanos depois da queda das Torres Gmeas, 
em 2001, diz o arquiteto e urbanista Ives de Freitas, ex-diretor do Departamento de Controle do Uso de Imveis (Contru). Segundo ele, desde que a capital do Estado 
foi palco de um dos incndios mais trgicos da histria do Pas  o do Edifcio Joelma, que resultou na morte de 187 pessoas  as leis sobre o assunto vm sendo 
aprimoradas pelos legisladores. Tragdias parecidas em outros Estados, como as do Edifcio Andorinha, em 1986 no Rio de Janeiro, e do Edifcio das Lojas Renner, 
em 1976 em Porto Alegre, tiveram efeito legislativo semelhantes. Mas de que adianta uma legislao moderna se a fiscalizao quase no existe?, questiona o arquiteto. 
Os especialistas tm algumas sugestes para mudar essa situao. Primeiro, simplificar a legislao estadual, que  boa, mas muito extensa e um pouco confusa. O 
ideal  reunir as melhores ideias em um conjunto enxuto de leis mais fcil de compreender e aplicar. E dar autonomia aos municpios para que eles possam fazer adaptaes 
limitadas a esse conjunto de leis para atender s demandas especficas de suas cidades. Por fim, investir, pesadamente, na contratao e treinamento de pessoal para 
fiscalizar essas leis.

TRABALHO - Bombeiros fiscalizam casa noturna:  preciso aumentar o efetivo e uma alternativa  formar um corpo civil 
 
4 Prefeitura
 Das diferentes instncias de atuao do governo, as prefeituras so as maiores responsveis pelo bom funcionamento das casas noturnas em sua jurisdio. E a razo 
 simples: todo caminho percorrido por um empresrio que deseja abrir um empreendimento dessa natureza comea e termina na prefeitura. Antes de a obra comear,  
a prefeitura que determina, por exemplo, se o terreno escolhido est na rea de zoneamento adequada e se a obra est alinhada ao plano diretor da cidade. Cabe tambm 
a ela e s suas secretarias emitir o alvar de construo, acompanhar a obra e, ao fim de todo processo, rever os documentos para conceder o alvar de funcionamento 
definitivo. Na prtica, como ela est mais prxima do cidado,  a prefeitura quem cobra o respeito s leis e regras e regula o setor, diz Rosaria Ono, professora-doutora 
do departamento de tecnologia da arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de So Paulo (FAU-USP). Mas, para uma instncia de poder com 
funes to complexas,  bvio que faltam funcionrios e investimento. Os empresrios reclamam, com razo, da demora na emisso de alvars e da indstria criada 
para agilizar esse processo. Com investimento e pessoal, haver mais gente para emitir alvars, eliminando o mercado paralelo. Envolver os fiscais municipais na 
discusso das regras e legislao tambm  uma alternativa, aposta o arquiteto e urbanista Ives de Freitas, ex-diretor do Departamento de Controle do Uso de Imveis 
(Contru). Quando trabalhava no Contru, Freitas viu seus fiscais trabalharem com mais afinco quando eles se envolviam em discusses legislativas.

5 Corrupo
 Onde h fiscalizao, as oportunidades para corruptos e corruptores se multiplicam. E onde existem dificuldades sempre aparece algum para vender facilidades.  
o caso da fiscalizao das casas noturnas, uma vez que um alvar de funcionamento chega a levar cinco anos para sair e sua ausncia pode resultar no fechamento do 
negcio. A cultura da corrupo precisa ser superada no Brasil de uma vez por todas. O Pas no tolera mais tanta naturalidade diante desse tipo de delito.  com 
a punio severa dos corruptos, empresrio e fiscal, que se desestimula a corrupo, diz Adib Kassouf Sad, presidente da comisso de direito administrativo da Ordem 
dos Advogados do Brasil, seo So Paulo (OAB-SP). Enquanto isso, h algumas medidas que podem dificultar a ao de corruptos e corruptores. Uma alternativa  terceirizar 
o trabalho de fiscalizao desse tipo de atividade, defende Percival Menon Maricato, diretor jurdico da Associao Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrase). 
A prefeitura podia firmar parcerias, por meio de licitaes, com associaes de arquitetos e engenheiros para fazer essas vistorias, sugere. E todos os procedimentos 
de fiscalizao poderiam ser feitos por duplas de fiscais, para que um acompanhe de perto o trabalho do outro.
 
Foto: Tarso Sarraf/Folhapress


4. ADOO SEM FRONTEIRAS
Os brasileiros comeam a superar os preconceitos e aceitar crianas que estavam fadadas a crescer em abrigos: negras, mais velhas e com necessidades especiais
Laura Daudn

O ano era 1973. O Brasil da ditadura militar ainda nem sonhava com um estatuto que garantisse o direito das crianas e dos adolescentes, que s chegaria em 1990, 
aps a redemocratizao. Em Curitiba, no Paran, Hlia Pauliv, hoje com 75 anos, adotava duas meninas, ambas de pele branca, tal como a sua, e ainda bebs, como 
a sociedade preconizava. Adotei num tempo em que havia muito preconceito. S se escolhiam bebs e os maiores iam para reformatrios, diz Hlia, que atualmente 
coordena um grupo de apoio chamado Adoo Consciente. A transformao ocorrida nessas ltimas quatro dcadas pode ser ilustrada na experincia de uma de suas filhas, 
Fernanda, 39 anos. Em 2009, ela adotou as irms Maria Vitria, hoje com 8 anos, e Elizabete, de 11. No passado, adoes como essas, envolvendo crianas mais velhas, 
negras, grupos de irmos ou com algum tipo de deficincia eram consideradas quase impossveis. Com isso, essas pessoas fatalmente perdiam a oportunidade de recomear 
suas histrias em uma nova famlia. Mas nmeros divulgados no fim de janeiro pelo Conselho Nacional de Justia (CNJ), rgo responsvel pelo Cadastro Nacional de 
Adoo (CNA), mostram que o Brasil est se redimindo desses longos anos de preconceito. Os pretendentes esto cada vez menos exigentes com relao  cor da pele, 
ao sexo e  idade. Alm disso, ainda que de maneira mais lenta, esto mais abertos a adoes especiais, de crianas portadoras de algum tipo de enfermidade ou deficincia. 
Essa tendncia, j bastante consolidada entre os adotantes estrangeiros, comea a diminuir as brutais diferenas entre o perfil requerido pelos pais e a realidade 
das crianas abrigadas no Pas.

Em 2010, 31% dos inscritos no cadastro se diziam indiferentes  cor da pele. Hoje, so 38%. 
A mesma variao se v no caso da idade. H dois anos, quase 20% dos pretendentes exigiam crianas menores de um ano. No ltimo levantamento do CNA, eles somam apenas 
16% (leia quadro). O coordenador de Infncia e Juventude do Tribunal de Justia (TJ) de So Paulo, Antonio Carlos Malheiros, explica que a adoo de crianas mais 
velhas j  uma realidade no caso das adoes internacionais. Segundo um levantamento do TJ feito entre janeiro e junho de 2012, 36 das 49 adotadas por estrangeiros 
no Estado tinham mais de 6 anos. Para o desembargador, a mudana que estamos vivendo  reflexo da nova lei de adoo, de 2009. Ela obriga que os adotantes passem 
por uma orientao junto aos grupos de apoio antes de serem habilitados. Esse trabalho de conscientizao fez determinados preconceitos cair por terra, afirma. 
A percepo  compartilhada por Silvana do Monte Moreira, presidente da Comisso Nacional de Adoo do Instituto Brasileiro de Direito da Famlia (Ibdfam). A gente 
deve apresentar aos pretendentes a realidade nua e crua. A maior parte das crianas  negra, tem mais de 5 anos e algum tipo de doena, diz. Isso tem aberto o 
corao das pessoas para o fato de que filho a gente no escolhe, filho chega.
 
Justamente por no se tratar da escolha de um produto em um supermercado, a adoo no est imune a eventuais conflitos e problemas, assim como acontece com a criao 
de um filho biolgico. Para muita gente, a adoo  um sonho, e no funciona assim, afirma a administradora pblica Cristiane Pinto, 35 anos, me de Aline, 16, 
adotada h quatro anos. A nossa filha veio com uma bagagem muito pesada e a gente percebia isso nos pesadelos, na sade, nas reaes inconstantes. Tivemos de ter 
pacincia, dialogar e dar muito amor para vencer essas barreiras.  esse tipo de experincia que vem sendo compartilhada nos 124 grupos de adoo formais e informais 
espalhados pelo Pas, segundo a Associao Nacional de Grupos de Apoio  Adoo. Eles vm ajudando a desfazer mitos e a orientar os pais nos momentos mais difceis. 
Roberto Beda, presidente do Grupo de Apoio  Adoo de So Paulo (Gaasp), afirma que, nos encontros que acontecem mensalmente e renem pretendentes e pais que j 
adotaram, os participantes tm a oportunidade de trocar informaes sobre como proceder, por exemplo, em casos de regresso  uma reao bastante comum nas adoes 
tardias. As crianas tm comportamentos que no condizem com a sua idade. Chupam chupeta, fazem xixi na cama.  como se eles tivessem que renascer na nova famlia, 
diz. Beda afirma que esse  um indicador positivo de adaptao, mas pode ser mal interpretado se os pais no tiverem conhecimento anterior.

Foi justamente a participao em um desses grupos que revirou o entendimento que a oficial de justia Paula Cury, 43 anos, tinha sobre a adoo. Em 2006, quando 
dei entrada na minha habilitao, achava que s se adotavam bebs, diz. Hoje ela  me de Rodrigo, 6 anos, diagnosticado com paralisia cerebral, de Maria Luiza, 
5 anos, portadora do vrus HIV, dos irmos biolgicos Laura, de 15, e Alexandre, 13, alm de Maria Eduarda, que tem 7 anos e sofre de hidroanencefalia, macrocefalia, 
paralisia cerebral grave e epilepsia. Ela tambm coordena um frum na internet com a inteno de informar as pessoas sobre a adoo de crianas com alguma necessidade 
especial. No pode ser um ato de caridade, porque voc logo vai cobrar da criana uma gratido que no existe. A adoo tem de ser muito consciente, afirma.
 
Esse entendimento cuidadoso do processo, que preza pela real capacidade do adotante de satisfazer os interesses da criana, ficou plasmado na nova lei de adoo. 
Nela, o Estado brasileiro v os pretendentes como parte da soluo para o problema das crianas sem famlia, e no o contrrio. No se buscam crianas adequadas 
s famlias, mas famlias adequadas s crianas, diz Roberto Beda.  importante, portanto, que pais e mes que desejam adotar tenham plena conscincia do que os 
motiva. Segundo a psicloga Cintia Liana Reis de Silva, que atua na organizao italiana Senza Frontiere Onluz de adoo internacional,  preciso identificar o que 
desperta o desejo de adotar. Se a vontade do adotante  legtima e saudvel, o sucesso est quase garantido, afirma.

A analista de departamento pessoal Andra Sampaio, 40 anos, carregou essa vontade desde a infncia. Quando pequena, pediu que sua me lhe comprasse uma boneca negra 
que vinha com certificado de adoo. A certeza de que seria me adotiva foi compartilhada mais tarde com o marido, Eduardo Giraldi, e culminou com a adoo, em 2003, 
de um menino negro de apenas 3 meses que estava abrigado em Salvador, na Bahia. As pessoas no queriam fazer uma adoo inter-racial por ter medo de falar sobre 
adoo, diz. Diego, hoje com 9 anos, logo pediu uma irm aos pais. Vitria chegou em 2008, aos 2 anos e meio, depois de ser abandonada em um centro de acolhimento, 
em So Paulo. Sobre o preconceito, Andra sentencia: As mudanas culturais que geraram novas estruturas familiares esto abrindo caminho para a quebra dos velhos 
estigmas. Alm disso, recentes estudos mostram que a aceitao e a vivncia da diversidade pela famlia so positivas para o desenvolvimento dos adotados. Uma pesquisa 
publicada em 2010 pela professora Gina Miranda Samuels, da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, revela que o aprofundamento da identidade racial  extremamente 
importante para o filho fruto de uma adoo inter-racial  concluso que coloca em juzo a prtica de no assumir as diferenas na cor da pele. Esse tipo de esclarecimento 
 fundamental para quem se sente inseguro na hora de delimitar o perfil da criana a ser adotada.

Ns nunca sofremos nenhum tipo de preconceito, mas eu vivo me preparando para isso, afirma a gerente de marketing Maria Aparecida Vasconcelos, me de Catarina, 
4 anos, que foi adotada h um ano e meio, em So Paulo. A sua estratgia para trabalhar as diferenas  a transparncia. Ainda que ela veja tudo de maneira ldica, 
explico que ela no nasceu da minha barriga, apesar de eu ser sua me. A mesma filosofia foi aplicada por Alessandra Marangoni, me da menina N.L., que hoje tem 
2 anos e cuja me biolgica era portadora de HIV. N.L. no nasceu de mim, mas para mim. Ela tem uma histria que precisa ser respeitada e eu no vou tirar esse 
direito dela, afirma. Sobre a deciso de adotar uma criana com possibilidade de ter Aids  recentes exames constataram que ela era negativa para o vrus , Alessandra 
afirma que tinha mais medo de que um de seus dois filhos biolgicos morresse de asma.  uma doena? . Tem chance de morte? Tem. Mas no  um bicho de sete cabeas. 
Dados do CNJ de 2012 mostram que 1107 crianas aptas  adoo tm problemas de sade. Dessas, 144 tm o HIV.

A Associao Paranaense Alegria de Viver (Apav), de Curitiba,  um dos centros de acolhimento que recebem apenas portadores do vrus. Ao longo de duas dcadas, a 
organizao j atendeu mais de 120 crianas e jovens. A fundadora Maria Rita Teixeira, 60 anos, que tem trs filhos biolgicos e um adotado, ressalta que, uma vez 
superado o preconceito, o mais difcil  transpor os obstculos da Justia. As crianas que recebemos so encaminhadas pelo juiz e logo esquecidas. As destituies 
familiares, essenciais para as adoes, simplesmente no acontecem. Uma situao similar impediu que, em 2010, Aristia Rau, 48 anos, e seu marido Alberto, 55, 
adotassem quatro crianas portadoras de HIV em Curitiba. Mesmo depois de conseguir a guarda de duas crianas do Rio de Janeiro, Mateus, 15 anos, e Daniele, 11, o 
casal resolveu se manifestar contra a falta de justificativas da Vara da Infncia e fundou o Movimento Nacional das Crianas Inadotveis (Monaci). O objetivo  chamar 
a ateno para os abrigados que ainda no esto na lista do CNA por conta da demora nos processos. A situao das crianas em abrigos  uma verdadeira caixa-preta, 
afirma Aristia. O CNJ estima que 43.915 crianas estejam em centros de acolhimento em todo o Pas. Dessas, apenas 5.499 esto aptas  adoo.

Gabriel Matos, juiz auxiliar do conselho, afirma que existe um preconceito de que a criana destituda ficar sem famlia durante o perodo de acolhimento, o que 
gera certa letargia do Judicirio na hora de julgar esses casos. Para resolver esse problema, o Conselho promete adotar um sistema integrado de informaes com 
o Ministrio Pblico e o Ministrio de Desenvolvimento Social e fazer um levantamento do nmero de crianas abrigadas que ainda precisam passar pelo processo. Segundo 
a juza Maria Lucia de Paula Espndola, da 2 Vara da Infncia e Juventude de Curitiba, a destituio deveria durar at 120 dias, mas a dificuldade de encontrar 
todos os familiares e conseguir todas as negativas necessrias para entregar a criana  adoo atrasa o processo. Entendemos que os trmites no podem ser rpidos 
porque temos de ter responsabilidade. Mas  fato que nosso Judicirio no est bem estruturado, afirma Antonio Carlos Malheiros. As nossas varas ainda no so 
especializadas e precisamos quadruplicar o nmero de tcnicos. Considerando que, apesar da paulatina mudana de comportamento dos brasileiros, o passar do tempo 
ainda reduz substancialmente as chances de essas crianas serem adotadas, a mudana  urgente.

Foto: Frederic Jean/Ag. Isto; Guilherme Pupo; Pedro Dias, Gabriel Chiarastelli - Ag. Isto
